quinta-feira, 20 de julho de 2017

o homem que tinha sorte

Eu sabia que ele ia chegar. Percebi quando saí na calçada para fumar. Acendi o cigarro e olhei para o céu meio alaranjado de São Paulo. Vi uns três aviões desaparecerem entre os prédios. Pelo viaduto, contei três ambulâncias apressadas e barulhentas. Na minha frente um homem travava todo o trânsito da rua em tentativas incontáveis de estacionar o carro na vaga. Tudo isso aconteceu enquanto ele chegava.

- Boa noite! 
- Opa, boa noite! – respondi já com a mão no maço de cigarros. Ele tinha cara de quem fumava. Apostava tudo que ele me cerraria um. 
- Tou encanado com esse número aqui – disse apontando para o 1974 que estava na lateral de uma Brasília azul bem cuidada estacionada à esquerda. 

Perguntei-lhe se era uma data especial. Já um pouco mais empolgado, ele respondeu que, na verdade, aquela já era a segunda vez no mesmo dia que havia se deparado com os tais números.

- Arrisca na loteria – sugeri.

Ele ia e vinha na calçada sem tirar os olhos do tal número. 

- Loteria eu não acredito, não; sou mais o jogo do bicho, é mais seguro.
- E como você vai fazer? Vai somar os números? – quis saber.
- Isso, vou juntar com os da placa do carro também.

1+9+7+4 somados à placa do carro 4+3+8+7 daria 43.

- E qual é o bicho que tem esse número? 
- Cavalo! – foi rápido na resposta. – Tenho sorte com cavalos – emendou.

Os seus olhos eram de um brilho... 

A essas alturas ele já deve ter jogado. Ou está quatro reais mais pobre, o que ele me confessou que iria apostar, ou está cento e trinta reais mais rico, que era o que estava calculando ganhar. Talvez a grana não seja o suficiente para ele largar o emprego de vigia noturno. Mas talvez dê para tapar alguns buracos do orçamento de casa ou, quem sabe, fazer um agrado para a patroa.

Ele carregava uma esperança bonita de ter uma vida sem muitos apertos. O homem acreditava na sorte com tanta verdade. Mas aqueles sonhos, de tão simples, não poderiam ser comprados com cento e trinta reais. O lindo ali era o acreditar que ele conjugava apenas com o olhar, que era de um brilho...
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