terça-feira, 6 de junho de 2017

domingo no sítio

Quando completei doze anos, meu tio Savinho me convidou para passar uma manhã no seu sítio, um lugar tranquilo, de ar virgem, cravado na Serra da Mantiqueira. Um domingo seria o ideal, ele deu a letra, dia de reflexão, de bons conselhos. Mas o tempo, sacana como sempre foi, nos ludibriou. Vieram, então, os compromissos estudantis e a ânsia por uma felicidade adolescente que era alimentada por línguas, amores e namorinhos de portão. 

E, assim, a vida foi passando, passando... 

Surgiram outras novas bocas. Outras paixões. Outras desilusões. Outros abraços. Outros namorinhos. E outros portões. Lembrávamos sempre do nosso trato nos cafés de sábado à tarde na casa da vó. E ficávamos de remarcar para um domingo qualquer.

E, assim, a vida foi passando, passando... 

Até o dia, recente, em que lhe disse que gostaria de ir ao sítio. Era um pedido nostálgico. Vamos fazer um churrasco num domingo?, ele convidou, animado. Domingo é bom, continuou, dia de reflexão, de bons conselhos. Topei. Mas falhamos de novo. Deixamos nos levar por compromissos bestas.

E, assim, a vida foi passando, passando...

Quando acordei, o telefone berrava. Era sexta-feira, sete e meia da manhã. Do outro lado, meu pai, com a voz baixa, avisava: seu tio descansou. Eu estava nocauteado. Era como se a vida tivesse me roubado o ar por alguns segundos depois de um muro bem dado na boca do estômago. Já era tarde.


 PS: No último domingo eu voltei ao sítio, depois de 15 anos. Estava tudo quieto, mas, ao mesmo tempo, tão vivo. 

PS2: Eu voltei de lá escutando essa música, que me faz lembrar tanto aquelas terras.


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