sexta-feira, 1 de julho de 2016

uma história de amor

Foi na cama que tudo aconteceu.

- Fala, vai... – pediu ela, com um sorriso calmo.

Ele disfarçava. Pegava o celular pra lhe mostrar a foto do passeio que havia feito com a família no último final de semana.

- Vai me enrolar mesmo? – insistia a menina com olhos apertadinhos.

No fundo, ela já sabia o que ele queria. Ou melhor: já sentia. Ela sempre teve um sexto sentido acima da média, apurado. Na verdade, pensando bem, aquilo não era um sexto sentido, era bem mais que isso, era algo que ninguém conseguia explicar, muito menos entender. Ela tinha uma alma limpa, infantil pela pureza, sutil pela beleza.

E talvez tenha sido essas as qualidades que ele, ingênuo e um pouco calejado com essas coisas do coração, permitiu que entrassem pelos seus olhos e que caíssem em sua corrente sanguínea. Aquilo havia sido tão certeiro, tão mortal, que os caminhos de volta haviam se fechado. Mesmo que quisesse, ele não conseguiria mais retornar. Cabia a ele apenas tentar remar o barco num rio furioso que nunca foi de respeitar as margens da razão. Era difícil aquela situação. Mas ele tentava. E disfarçava.

- Você já me deixou curiosa com esse mistério todo, agora eu tô é ficando preocupada! – falou com uma seriedade que tentava, em vão, tapar a felicidade que brotava dos seus olhos pequenos.

Ele trocava de canal com os dedos nervosos. Já viu esse filme?, perguntava o menino. Ela nada respondia. Era a ansiedade – dela e dele, cada um à sua maneira. Ele tinha lá os seus motivos para aquele suspense todo, afinal, nunca sentira aquilo. O coração dele, enfim – e depois de tantos tropeços –, havia entrado no ritmo que sempre desejara. Mas, apesar de ele estar pra lá de convicto, o medo ainda rondava. Bastava a ele apenas um pouco de coragem para afugentá-lo.

Ah, mas a coragem, nessas horas – principalmente nessas horas –, costuma se acovardar. E ele sabia disso, aliás, sempre soube. E ela, como se fosse uma contagem regressiva de um relógio sem paciência com o tempo, continuava a pressioná-lo. Mas a pressão era feita com aquele olhar fulminante, com o mesmo olhar que o quebrou na curva da razão há alguns meses.

- Tô com vontade de te beijar! – falou ele.

Ela mergulhou.

- Quer namorar comigo? – perguntou ele.

Ela parou. Olhou. E mergulhou naquele beijo de novo – feliz.

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