quarta-feira, 2 de março de 2016

roubaram meu poema

Foi na maior cara dura, na mão grande mesmo. O poema não estava mais lá. Ficava na parede do bar. Sobrou apenas a moldura. Roubaram minha homenagem ao boteco, ao meu boteco, que tem chão quadriculado e garçom engravatado. O boteco que sempre vou, de samba, de papo e retrato.

Foi o Val, o gerente e meu amigo, quem avisou.

- Levaram seu poema!

Os ladrões não estão poupando nem mais os poemas, meu Deus!, pensei. Isso é muito angustiante. Levaram minhas palavras, levaram parte do meu sentimento, parte da minha inspiração. E justo o meu poema predileto. Mancada isso. Tem tanto amor guardado naquelas estrofes que a minha esperança é que o ladrão seja contaminado com ele e volte para devolvê-lo, com o rabo entre as pernas.

Não, não… Talvez essa seja apenas a esperança de um poeta sem poema ou um desejo que carrega uma tristeza pesada nos ombros. Se tivessem roubado a moldura apenas, estou remoendo aqui, vai lá… Até que tudo bem! Moldura dá-se um jeito, a gente compra outra, improvisa ali, enfim…

As palavras são armas de quem escreve. Aquelas, especificamente, não voltam mais. Não adianta nem tentar, seria em vão pegar numa caneta e tentar evocá-las. Tem hora que as palavras são impiedosas de tão únicas, fazer o quê. Os poemas são como fotografias que tiramos. Jamais vamos conseguir fazer uma foto igual à outra. Magia se cria, nunca se recupera.

E poemas carregam sentimentos que são exclusivos de um momento. Aquele texto guardava a euforia de uma noite bonita de verão, com pessoas felizes, cerveja gelada, música boa… O bar estava em festa quando o poema foi escrito. Pois é, a rima que fica aqui é de um coração frustrado, de um cara revoltado, que foi vítima de um ladrão mal amado.

Roubaram meu poema, é verdade, não minha poesia.

Vida que segue…

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