terça-feira, 15 de março de 2016

o ódio de clóvis

Clóvis, Clóvis... Sei bem que, no fundo, no fundo, se o tempo permitisse, você faria tudo diferente. Talvez você tenha sido uma presa fácil do destino. E do amor. Você não soube ponderar a perda. Explodiu fácil e escolheu o caminho errado. Uma pena. Mas imagino também que perder um amor não seja algo tão fácil como essas palavras que falo agora. Aliás, preciso contar quem foi Clóvis. Clóvis foi um senhor (que eu chamo de você por licença poética da amizade) de quarenta e seis anos – desculpe-me – quarenta e cinco, mas que, na verdade, aparentava uns sessenta e poucos. Não vou dizer que ele estava acabado porque eu estaria sendo injusto com aqueles que têm sessenta e poucos anos.

Clóvis tinha os cabelos brancos. Todos. Sem exceção. Tinha mais rugas que a idade – a verdadeira – lhe permitia. Seus olhos eram caídos e o olhar... Ah, o olhar... Era triste. Tentei encontrar outros (tristes) adjetivos, mas esse é o melhor que define. Os olhos não brilhavam mais há muito tempo. Ele andava como se fosse um velho não de sessenta e poucos anos, e sim como um velho de oitenta. Ele andava curvado, com uma bengalinha de avô. Dizia ele que era por conta de uma dor na coluna, uma hérnia de disco. Mentira, conversa pra boi dormir. Era tristeza mesmo.

Tristeza porque Clóvis perdeu o seu primeiro e único amor. Laura é o nome dela. Moça bonita, vaidosa sem exageros, rosto delicado, narizinho que parece ter sido feito à mão de tão bonito. Clóvis e Laura ficaram juntos quase quinze anos. Os dois se conheceram numa festa de formatura de um amigo do Clóvis que eu não conheci. Apaixonaram-se logo de cara. Depois, aquilo evoluiu e acabou dando em amor. Pelo menos para ele. A tristeza do meu amigo começou numa tarde de sexta-feira. Era outono, quase inverno. Laura havia desaparecido – foi o que ele sempre disse. Mas eu sei que, na verdade, ela não desapareceu. Ela fugiu. Fugiu com outro sujeito, um tal de Armando, homem rico, engenheiro que passava alguns meses em cada cidade e ia embora.

Quando passou por aqui, levou Laura.

Clóvis, coitado, ficara mal, e não era pra menos. Acabara de perder o seu amor, o grande amor de sua vida. Mas ficara pior ainda quando soube, não sei por quem, que Laura havia fugido com outro. Ali a sua tristeza havia despertado como a fúria de um guerreiro. A tristeza foi tão rápida quanto uma presa tentando fugir do seu algoz. Pegou Clóvis de jeito e, dali em diante, ele foi se transformando naquele senhor que descrevi mais acima. O senhor de quarenta e cinco anos com corpinho de sessenta e poucos.

Ah, mas o que seria de nós sem as surpresas da vida, não é, meu querido Clóvis?

Era meio dia e pouco quando o estômago de Clóvis mandou o recado que estava na hora do almoço. Ele desceu do vigésimo terceiro andar e deu direto na rua. Amontoou-se no meio da multidão para esperar o semáforo abrir. De repente, o seu roteiro foi quebrado por um frio que começou nos pés, deu duas voltas na barriga, falou oi para o coração e subiu pra cabeça. Clóvis estava paralisado com quem acabara de ver do outro lado da rua. Era Laura, ainda linda como há dez anos, quando o abandonou. Claro, a idade chegara para ela também, mas estava toda bonitona, apesar dos anos. A única mudança visível nela eram os seios – Laura tinha colocado alguns miligramas de silicone, coisas dessa vida moderna.

- Clóvis?
- Laura?

Os dois pararam.

- Que surpresa encontrá-la! Nem sabia que estava morando aqui – disse Clóvis, não com essa facilidade que você acabou de ler, a frase saiu em doses homeopáticas de nervosismo.
- Pois é, a vida acabou me trazendo pra cá, veja você, justo eu que nunca quis ficar aqui, lembra?

Ele sorriu meio amarelado.

Laura estava solteira. Havia se separado do marido, aquele com quem fugira, abandonando o pobre do meu amigo. Não consegui confirmar, mas parece que o tal do Armando havia se encantado por outra e abandonado Laura – bem feito! Ela, então, sem saber muito que fazer, voltou para a casa dos pais com os três filhos. Já fazia dois anos e pouco que ela tinha retornado.

* * *

Clóvis, querido,

nosso encontro naquele dia foi tão rápido que me senti uma mal educada ao não lhe chamar para um café, nem mesmo para lhe pedir o seu telefone para um contato futuro. Talvez a pressa dessa cidade de malucos já tenha me contaminado (risos). O que me restou foi lhe mandar este e-mail – e torcer, lógico, para que você ainda o acesse.

Minha vida mudou muito nesses últimos anos, Clóvis. Muito. Não sei se você soube, mas eu me casei e tive três filhos – Armando, Josué e Victória. Eles são lindos, você precisa conhecê-los qualquer hora. Sempre quis lhe contar tudo isso, mas o destino nunca me autorizou. Quis ele, naquele dia – no meio da multidão da avenida, na hora (atribulada) de almoço –, que eu lhe encontrasse.

Pois bem, eu queria lhe dizer que me arrependi, querido. Me arrependi de todas as escolhas que fiz. Posso muito bem colocar a culpa na minha imaturidade eufórica ao ter abdicado do seu amor, que sempre foi sincero comigo, em troca de outro “amor”. Assim mesmo, entre aspas. Eu me enganei esse tempo todo.

Eu nunca lhe esqueci, Clóvis. Foi preciso eu viver outra vida para entender que havia deixado de lado uma felicidade legítima. Ah, se você soubesse como é sufocante se arrepender... Meu Deus! Machuca. Machuca muito mais do que o abandono.

Esse foi o sentimento que me norteou até eu desembarcar nesta cidade de novo com um único desejo: encontrar a agulha que, um dia, deixei se perder no palheiro. E eu achei. Gostaria muito de encontrá-lo novamente. Me escreva.

Beijos,

L.

Clóvis está morto. Morreu do coração. Diz o médico que foi infarto do miocárdio. Mentira. Eu sei que não foi. Clóvis morreu sufocado por um ódio que ele mesmo cultivou. Essa foi a estratégia que o meu amigo adotou para matar o amor que nunca lhe foi correspondido. O preço foi alto. Agora eu estou aqui, sozinho com ele, nesta madrugada gelada. Nem um café decente tem nesse lugar. E nem a Laura apareceu.

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