quarta-feira, 23 de março de 2016

cheiro de amor guardado

Até ontem eu tinha uma certeza quase absoluta de que os meus armários e gavetas serviam apenas para guardar minhas coisas. Mas eu percebi a tempo que eu estava errado. Descobri isso ontem, quando o ócio me convidou a dar um jeito nos armários do meu quarto. Foi aí que eu saquei que eles são uma espécie de HD externo da minha cabeça, que eles são uma extensão da minha memória, um antídoto dos bons contra o esquecimento.

Pois é, eu encontrei lá dentro fotos, bilhetes, lembranças e outras tantas coisas amontoadas em pastas, jogadas nas prateleiras empoeiradas, estava tudo lá. Jamais poderia imaginar que uma simples arrumação poderia me proporcionar uma viagem tão gostosa e inesperada. Vi uma vida confinada abrindo os olhos devagar, vi uma vida sorrindo novamente.

Comecei tirando os meus livros. Um a um. Fui folheando cada página daqueles livros que iam ganhando o mundo de novo. Depois puxei uma pasta. Tinham mais vidas, sorrindo, ali dentro. Encontrei, quem diria, um livrinho que eu havia escrito quando descobri que minhas tramas inocentes poderiam ser impressas. As histórias eram tão bobas que meu rosto chegou a ficar vermelho de vergonha.

Enfim, eu só queria falar desses felizes acasos do destino, desses impulsos inesperados e despretensiosos que nos fazem lembrar. Ah, lembrar... Que verbo tão vulnerável e que, quando conjugado, vem quase sempre precedido do não. Culpa dessa vida corrida, deve ser, culpa dessa mania que nos obriga a olhar apenas para a semana que vem, para o futuro.

Encontrei ali, dentro do meu armário, fatos que eu deixei cair no meu esquecimento. Como eu poderia ter me esquecido daquela tarde regada à cerveja gelada com os amigos da faculdade naquele bar xexelento? Foi uma das melhores cervejadas da minha vida (planejávamos mudar o mundo), mas que eu não me lembrava mais. Sei lá, talvez eu tenha colocado no lugar alguma preocupação idiota que deve ter me dado apenas uma dor de cabeça e alguns cabelos brancos. 

Mas ainda bem que existem os armários, ainda bem que eles sabem guardar o amor que, muitas vezes, a gente deixa escapar. Ainda bem.

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