sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

ao músico que cantou pra ninguém

Eu te vi no sábado, no último, cantando pra ninguém naquele barzinho do centro. Pra ninguém modo de dizer, tinha uns quatro garçons em pé na porta de braços cruzados jogando conversa fora. Passei por ali três vezes. E voltei pra passar uma quarta só pra ver se alguém havia resolvido sair de casa pra tomar uma cerveja e te ouvir cantar, meu caro. Mas não, não tinha ninguém. Fui pra casa frustrado. Por mim e por você.

O problema deve ser a crise. Culpa da Dilma, como dizem por aí. Tá todo mundo sem grana, poupando até mesmo o salário que ainda não foi suado. É isso. Ninguém quer gastar mais do que o arroz e feijão do dia a dia. Sabe como é, né?! Nesses dias de hoje, o mundo cobra couvert até mesmo pra ir à padaria da esquina. Tá complicado, você deve saber bem do que estou falando.

Além da crise, o frio e a chuva fizeram a preguiça gritar ainda mais. O termômetro da praça, não sei se você chegou a ver, estava marcando onze graus. Outro agravante: o bar que você tocou não tinha aquecedor. Aí é que o povo não sai de casa mesmo, não adianta. Nesta época do ano as pessoas preferem mais um fondue, vinho, filme e edredom. Sair de casa com frio acaba virando um sacrifício e tanto.

Mas, olha, não pense que você canta mal, por favor. Desafinar, acredito eu, deva ser normal na vida de qualquer cantor. Já vi alguns grandes nomes perderem o controle da voz pelo menos uma vez. Talvez você não estivesse num grande dia, acontece. Outra coisa que pode ter, digamos, afugentado o público foi o repertório. Mas isso é meio complicado dizer, já que não assisti a sua apresentação por completa.

Em uma das vezes que passei por lá ouvi algo como Tears in Heaven, do fantástico Clapton. Se ouvi bem, meu amigo, acho que você errou a mão nesta escolha. Desculpe-me a sinceridade: essa é uma música que combina, quem sabe, com uma segunda-feira e não com um sábado à noite de hormônios à flor da pele. #FicaDica. Na última vez que passei por lá, eu me lembro de ter escutado algo como Djavan, mas que depois me pareceu uma música do Frank Sinatra. Foi um pout-pourri ou eu que me perdi na minha ignorância musical?

Enfim, enrolei tanto até aqui pra dizer que você não deve ficar chateado com o que aconteceu no último sábado. Na verdade, estamos no mesmo barco. Porque este mero texto aqui, meu caro, ninguém deverá ler. Talvez nem você. O importante, guarda aí, é não desistir, nunca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário