quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

as pessoas daqui são mais felizes

Todas as pessoas parecem felizes por aqui, dá pra ver nos olhos delas. Há tempos eu não via isso. Na minha cidade, quase todos os olhares são diferentes. Sei lá, são olhares sem brilho, meio opacos só pra não dizer olhos preocupados, olhos com os quais, é verdade, eu já me acostumei — o que me envergonha um bocado, preciso admitir, acostumar nunca é bacana, ainda mais com olhos assim.

Talvez por isso que eu esteja achando esquisitos esses olhos felizes daqui.

Morro de medo de que os meus olhos estejam iguais aos de algumas pessoas da minha cidade. Dá arrepios quando penso que eles podem não brilhar mais. Olhos sem brilho são o primeiro sintoma de tristeza, é uma porta sem tranca para tudo aquilo que sempre rezamos para ficar longe, longe. Tenho horror só de pensar em tristeza.

Sempre desconfiei que ela se escondesse por trás de tanto cinza. Pode ser que eu esteja me equivocando, não descarto — eu me equivoco bastante, é bom que saiba. Mas eu quero falar mesmo dos olhos felizes das pessoas daqui. A tristeza não merece prioridade nem em textos vagabundos como este.

Os olhos das pessoas daqui são coloridos, mas não são um colorido tipo aquarela. Não, não. É um colorido de leveza. Lembram-me, pra você ter ideia, olhos de criança. Puros. Eles se sentam todo final de tarde na calçada e ficam vendo a vida. E a vida gosta de ser vista, é o que concluo agora, mas lembra-se dos meus equívocos? Então…

A vida deve ser muito vaidosa, por isso — estou pensando aqui — que o povo daqui é feliz. A felicidade é um presente que a vida dá pra quem a olha com atenção. E não me lembro de ter visto na minha cidade pessoas que param para vê-la como as daqui. Ao contrário, todos só têm olhos para um futuro que, curiosamente, nunca chega. Acho que algumas pessoas lá da minha cidade precisam olhar mais para a vida. Quem sabe, assim, elas fiquem iguais às pessoas daqui, com essa felicidade que chega até os olhos.

É o que eu acredito, muito embora eu viva me equivocando com as coisas.

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