terça-feira, 3 de março de 2015

a recaída

Celina não aguentou aquela situação com ele ali, dentro do carro no meio de um trânsito bem mais caótico do que os seus sentimentos, e desabafou. Foi só uma recaída, não se preocupe, Emílio.

Ele fez que não com a cabeça, queria dizer que aquilo não se tratava de uma recaída apenas e que ela estava tentando simplificar toda aquela confusão. Falou por falar apenas, foi o primeiro clichê que surgiu na sua cabeça. Mas ela nem ouviu, estava preocupada em falar somente.

Deixe que eu me viro com essas coisas que tô sentindo, Emílio. Conheço eles já não é de hoje e conheço bem melhor do que você. Sei muito bem que eles passam. Vão embora quando a cabeça consegue, sei lá, enganar o coração e a rotina. Sempre fiz isso e deu certo e não é agora, com você, que não vai funcionar. Pode demorar um pouco, é bom que saiba. Até que estou indo bem, se você quer saber a verdade. Como eu disse, foi só uma recaída e recaídas são normais, não me apavoro, disse com a voz meio chorosa.

Quando percebeu que as palavras dela estavam meio embargadas, Emílio se virou apenas para checar a emoção de Celina e tão logo se virou para os carros parados ao seu lado. Ela continuou, as palavras e os sentimentos eram tantos que era impossível parar por ali. Era a hora, pensou ela.

Sabe, tudo aquilo que eu sentia – ele olhou assustado e ela corrigiu – que eu sinto por você está grudado em mim ainda, está no meu coração, no meu quarto, nas músicas que sempre cantamos no carro, nos meus dias, nas coisas que eu penso, nos planos que sempre fizemos e que ainda estão vivos comigo.

Enfim, dei essa volta toda pra te falar que eu só liguei pra você naquele dia porque foi ali que eu percebi que o meu mundo havia desmoronado de vez, foi ali que percebi que estava sendo impossível fingir que nada estava acontecendo, que você era mais um... Eu não posso transformar você em mais um, tenho tanto amor ainda que, te esquecer assim, da noite pro dia, seria uma forma de falar pra mim que tudo que vivemos foi algo ralo, superficial e sem relevância.

Emílio, só pra terminar: eu gosto de você ainda, se é o que você quer saber. Por isso que te peço paciência comigo, me dê a calma que preciso, me dê o tempo para apagar você daqui, tá? Pronto, falei tudo. Fale você agora, eu também quero te ouvir, é importante pra mim. 

Eu queria que você não voltasse dessa recaída, só isso.

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