quarta-feira, 11 de março de 2015

a despedida

Ela se despediu em silêncio, achou melhor assim. Somente as lágrimas denunciavam a tristeza. Era um final de tarde melancólico. Talvez, um dos momentos mais doloridos de sua vida. Ela entrou e viu seus sentimentos espalhados pelo chão. Fragmentos de um amor marcado pela intensidade, lembranças de conversas que invadiam a madrugada, de gargalhadas que esvaziavam o fôlego, de uma paixão em êxtase, de planos e decepções: tudo estava ali, atirado no chão.

Aquela não era a primeira separação na vida de Joana. Mas era, sim, a primeira vez que o amor lhe dava um adeus inexplicável, era a primeira vez que ela sentia um vazio sem fim. Esse amor, intenso, foi embora lhe sorrindo, mostrando toda a sua racionalidade incompreendida. Joana estava sem ação. Seu corpo, já bem frágil, se debruçava sobre a cama com os braços abertos numa tentativa quase remota de juntar as migalhas daquele sentimento que viveu. 

Seus pensamentos voavam e seu choro caía.

As mãos iam fechando as caixas enquanto o seu coração ia fechando as portas para um sentimento. Era um adeus dado para o silêncio simplesmente. Ela não acreditava no fim. Sua razão bem que tentava compreender tudo aquilo, mas os seus sentimentos não a deixavam assimilar aquele adeus. O nunca não cabia no seu coração, era tempo demais – ou não era tempo, ela pensou. Saber que aquele amor não voltaria mais lhe causava uma dor imensa.  

Joana era uma figura abstrata atirada no meio de bilhetes apaixonados. O seu choro era um ensaio para se ver livre daquele peso ou talvez uma forma para aliviar a dor. Mas as lágrimas não estavam aliviando em nada. Ao contrário: apenas aumentava. As lembranças se tornavam ainda mais vivas quando Joana apanhava alguns daqueles pedaços de vida para colocar na caixa.  

A tristeza explodiu quando ela percebera que havia se esquecido de guardar um porta-retrato, que estava no criado ao lado da cama. Ali estava a foto do seu primeiro encontro com aquele que, hoje, alimentava a sua tristeza. Fora num parque que os dois se encontraram pela primeira vez. Tímida e incrédula, até então, nas coisas que iam além da racionalidade, seu coração começou a bater meio estranho, meio fora de compasso. A culpa foi dele, Jorge. Foi ele o cara que coloriu e descoloriu a vida de Joana.

“Eita que besteira!”, pensou ela quando viu que seus pensamentos estavam indo pro lado que não queria. Debruçou-se mais um pouco sobre a cama e evocou a frieza, mas veio a tristeza – de uma forma ainda mais avassaladora. Ela suspirou, já sentada. Queria contar até dez pra ver se encontrava alguma coisa que a deixasse mais calma. Parou no seis. As lembranças estavam demais. Era quase uma overdose de bons momentos, de beijos, abraços, de te amo...

Joana bem que tentou reagir, mas já havia se entregado. Estava sem forças em cima da cama. Suas mãos agarravam o lençol azul-marinho. Era parte de suas lembranças que, naquele momento, estavam quase se perdendo em meio a uma tristeza profunda. Mesmo assim, ela tentou se reerguer. Balançou por causa do nervosismo. Ainda conseguiu dar alguns passos em direção a porta, mas caiu logo adiante. E tudo foi ficando escuro.

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