sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

o fim e o começo

- Vou pedir aquele peixe com purê e você?
- Pode ser também.

Hélio andava assim, meio calado, quase monossilábico, já há alguns dias. Estava esquisito. Acordava cedo, tomava banho e ia trabalhar sempre em silêncio. O máximo que falava pra Ana era um bom dia ainda na cama, com a voz rouca e falha de quem havia dormido profundamente. Aliás, dormir pra ele naqueles dias só mesmo com remédio. Remédio, diga-se de passagem, que ele tomava sempre às escondidas. Hélio tentava disfarçar ao máximo tudo aquilo. Mas ele não conseguia. Agora eu vejo a falta que aquelas aulas de teatro da escola me fazem, era o que o pouco humor que ainda lhe restava permitia pensar numa situação daquela.

Os dois estavam juntos há oito anos e alguns meses. Era o máximo de tempo com uma mulher. Ana estava longe de ser linda, mas tinha algo que o encantou desde o primeiro dia de aula na faculdade. Ela era feliz. Talvez tenha sido que fez Hélio se apaixonar por ela lá trás. O jeito que ela tinha de ver a vida era algo difícil de encontrar por aí. Gente fina, ela tinha como costume dar um sorrisinho de canto de boca sempre no final de todas as frases, fossem elas boas ou ruins.

- Você reparou que foi aqui que a gente se beijou pela primeira vez? – perguntou Ana.

E como ele lembrava. Era uma sexta-feira. Sexta quase sábado. Hélio havia guardado boa parte de sua mesada para convidá-la para jantar. Ele sabia que aquele era o restaurante predileto dela. Queria impressionar. E deu certo. Eles se beijaram ali e, depois de uns quatro meses, começaram a namorar. Apaixonaram-se e resolveram se casar. Casar, não, juntaram as vidas e foram morar junto numa quitinete que era do avô dela. Estavam planejando comprar um apartamento maior, mas Hélio achara melhor esperar um pouco mais.

- Sabe de uma coisa? Foi bom a gente ter vindo aqui! Acho o lugar perfeito pra coisa que eu quero te falar.

Hélio também gostaria de falar uma coisa. Queria ele dizer que o amor havia acabado. Queria falar que toda aquela euforia passara. E que a culpa não era de ninguém. Talvez da vida, pensava ele numa tentativa quase sempre frustrada de justificar o que ele estava sentindo. A verdade era que os seus olhos não brilhavam mais como antes. E o coração já não sorria mais quando escutava a sua voz. A vontade de tê-la pra sempre em seus braços, como ele falara lá no começo, não existia mais. Ana se tornara uma pessoa normal em sua vida.

Ele já havia deixado todas as palavras prontas e todas as possíveis desconfianças dela com uma resposta sincera. Não, ele não tinha ninguém. Nunca teve e nunca pensou em ter. Ana era a mulher de sua vida. Sempre foi. Mas ela estava deixando de ser. Ou já tinha deixado, ele ainda não sabia ao certo.

- Eu também quero te falar um negócio importante, muito importante. Mas fala você primeiro, vai...
- Tá bom, vou ser direta, tá? É o seguinte: estou grávida! – falou Ana, sorrindo, como sempre.

Ele riu depois de ter uma sensação meio esquisita, um misto de felicidade, de angustia e de algo que ele não sabia dizer.

- Tá feliz?

Hélio explodiu em uma gargalhada.

- E o que você queria dizer, meu amor? – perguntou Ana.

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