terça-feira, 11 de novembro de 2014

carta de despedida

(escrita em 2020)

Escrever sobre despedida nunca foi o meu forte. Dói. Dói porque a despedida é um emaranhado de lembranças e saudades. Acho que é por isso. Mas vou ser bem clichê pra começar: lembro, como se fosse ontem, o dia que cheguei aqui. Meus olhos brilhavam. E parte desse brilho era graças às luzes dessa cidade. Nunca tinha visto algo parecido. Tudo me parecia mágico, me fascinava. Eu ainda era uma criança.

Foi aqui que eu amadureci. E realizei um tanto bom dos meus sonhos. Vi coisas que, antes, só a televisão me mostrava. Conheci mundos diferentes. Tribos diferentes. Conheci pessoas que levarei comigo até o meu último dia desta vida. Fiquei fascinado por olhares e sorrisos. Escutei sons e fiz do caos uma bela paisagem. Algo único e questionável, é verdade. Mas foi aqui que terminei de me lapidar.

Sou um pouco parte de São Paulo. Pouco pra não parecer exagerado. Porque, cá entre nós, eu sou São Paulo. A São Paulo da comida boa, da cerveja gelada da Paulista, do vinte e quatro horas. Mas também a São Paulo da ansiedade que brota do asfalto, a São Paulo do estresse. Pois é, ninguém é perfeito. Foi aqui também que aprendi a lidar com a minha imperfeição. Foi aqui que visitei algumas vezes o poço fundo da tentação, mas me levantei, sacudi a poeira e dei a volta por cima.

São Paulo me ensinou a amar. E amar de todas as formas que você pode imaginar. Foi aqui que o meu coração parou e voltou a bater. Foi aqui que meus olhos se encantaram pela felicidade dela. Foi aqui. Não sei o que seria de mim se não tivesse resolvido, lá trás, encarar essa loucura. Ah, e por falar em loucura, fiquei um pouco louco também. Mas é uma loucura saudável. Falo da loucura de arriscar. Aprendi isso aqui: se você não arrisca, nada acontece. É a vida, fazer o quê!

Mas o encanto acabou. Eu não queria que acabasse, juro, mas quis o destino assim. Não posso fazer nada. O brilho das luzes, hoje, incomoda. O trânsito estressa. E o céu quase sempre nublado abre um vazio aqui dentro – chega uma idade que a gente precisa ver as estrelas com mais frequência, é quase uma necessidade.  

Não vou chorar – prometi pra mim antes de começar –, mas é isso: a rima acabou e o tom se perdeu. As esquinas são apenas esquinas. Não consigo ver mais aquela magia de antes. Acabou. Acontece. E aquele sonho de antes trocou de roupa, se reinventou, e vai partir agora pra buscar uma paz que, infelizmente, não consigo encontrar mais aqui. Mas o amor continua. Será eterno.

Obrigado, São Paulo.

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