quinta-feira, 9 de outubro de 2014

ela

E ele acordou diferente, mas o mundo estava normal. Foi o que constatou assim que jogou as cortinas da sala para o lado. O sol brilhava como todos os dias. As pessoas caminhavam apressadas como todos os dias. E os carros entupiam as artérias da cidade como todos os dias. O jornal estava embaixo da porta também como todos os dias. E as manchetes não lhe confidenciaram nada que o fizesse se sentir daquele jeito, diferente. Descrente, como todos os dias, ele abriu o horóscopo que tanto desprezava. Passou os olhos com atenção – deixou o velho deboche um pouco de lado. Mas continuou desprezando todas aquelas previsões como todos os outros dias. Parou e olhou, então, a sua volta, como se fosse descobrir o motivo de ter acordado diferente. Nada fazia sentido.

Estava em paz, essa foi a sua primeira conclusão.

O mundo e os números em vermelho do relógio digital grudado na parede da sala não corriam mais daquele jeito desenfreado e nem obedeciam mais à loucura como todos os dias. Começou a notar sua respiração: estava mais cadenciada, como há tempos não ficava. Ainda incrédulo com aquela paz, correu para o banheiro. Olhou-se no espelho. Não viu nada demais. Apenas um sorriso que, mais tarde, ele iria descobrir que não vinha do seu rosto. Ele seguiu.

Naquele dia, diferente de todos os outros, ele não reclamou do trânsito nem do vermelho do semáforo que nunca lhe esperava. Sorria, como há muito tempo não fazia. Seu bom dia, a partir dali, tinha virado um bom dia mais intenso, mais colorido e verdadeiro. Sua boca apenas dizia sim às ordens da sua intuição, mas aquilo ele só viria a descobrir mais tarde também. Os olhos – ele reparou quando ajeitou o retrovisor – tinha algo diferente. Não era o verde que sempre desejou ter herdado do seu pai. Era um brilho, uma coisa diferente, como tudo naquele dia. Ele não sabia direito. Mas também não tentou entender.

Viveu, como há muito tempo não fazia.

Viveu cada entusiasmo. Cada minuto. Respirava mais profundo. Sentiu, de novo, aquela paz lá do começo. Agora, ele não achava mais aquilo tão estranho como antes. Parece que o mundo lhe mostrava, quase que em doses homeopáticas, como ser feliz. O ar estava mais leve. Ele estava mais leve. Por um instante, havia percebido que a vida, sorrateiramente, lhe roubara o seu passado e tudo que de ruim acontecera. Ele até que se esforçou, mas foi como se tudo que passara tivesse sido apagado. Não existia mais. Ele, então, decidiu não contestar mais e nem negar aquilo que estava sentindo. Permitiu-se. E o tempo lhe mostrou o motivo para tudo aquilo que estava sentindo. 

Era ela.

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