quinta-feira, 18 de setembro de 2014

cara legal

Ele era um cara legal. Tinha muitos amigos – os melhores preenchiam uma mão certinha. Tinha alguns inimigos também. E até nisso ele era coerente. Dizia, palavras dele, que ninguém poderia passar pela vida sendo unânime. Mas sempre lidou bem com a ideia de não ser o mais popular. Foi um bom filho. Nunca deu trabalho à mãe. Eram os dois apenas. Não conheceu o pai. Ele se separara de sua mãe pra viver outra vida e acabou dando com a cara no muro – e, depois, meteu-a na cachaça. Morreu disso. Essas eram as únicas referências que tinha do seu pai. Por isso que nunca bebeu. Tinha aversão a álcool. Foi até por esse motivo que dificilmente era convidado para as festas da escola. Era sóbrio demais para a sua turma.

No colégio, era o segundo aluno da classe. Segundo porque a primeira – ah, a primeira! – era a menina que fazia o seu coração bater meio esquisito, como vivia dizendo. Foi sua primeira paixão. Paixão, não. Foi amor mesmo. Mas ele só vinha descobrir isso tempos depois. Era dedicado, dedicado à vida. Estudava. Estudava bastante. Depois de alguns anos, estudava e trabalhava. Ajudava em casa. Era auxiliar administrativo de uma empresa capenga. Mas foi lá que conseguiu melhorar de vida e comprar uma TV dessas grandonas para a mãe, seu sonho.

Depois, anos mais tarde, saiu do aluguel e do ônibus. Comprou um carro. Carro. Nada de carrão. Ainda tinha a cabeça no lugar. Viajou. Conheceu lugares que nunca imaginaria conhecer. Viveu. Foi promovido. Casou com uma colega do trabalho. Tiveram dois filhos. Um menino e uma menina. Os filhos o fizeram um cara ainda mais legal. Tinha uma vida de dar inveja a muita gente. Era feliz aos olhos dos outros.

Mas quis o destino, lá pelas tantas, mudar tudo. E, quando o destino resolve mudar os rumos, quem começa pagando a conta é o coração. O cara, um dia, reencontrou aquela menina, a primeira aluna da sala, que fazia o seu coração bater meio esquisito, que fazia os seus olhos ficarem perdidos e suas mãos suadas. Há tempos ele não sentia aquilo. Há tempos, não – nunca sentira. O passado veio à tona. De mãos dadas com o amor. Foi arrebatador.

O cara legal não quis ser apenas legal. Queria ser feliz aos seus olhos. Disse adeus à mulher e até logo aos filhos. Saiu de casa para viver um amor, algo que nunca tinha sentido. Sua vida era apenas ela. A mão, antes cheia de grandes amigos, foi perdendo alguns dedos – ficou um apenas, seu grande amigo de infância. Ele era o único que o apoiava aquilo que os outros chamavam de loucura. Os filhos eram vistos bem pouco. Vivia cada vez mais pra ela.

Foi assim até o destino resolver brincar de novo. 

Aquele que, por anos acreditou ser o amor que a vida lhe reservou, dobrou a esquina. Desesperado, o cara foi atrás de seu amigo. Queria conversar. Descobrira que ele também havia dobrado a esquina. Quando soube disso, o sentimento foi de arrependimento. Pagou um preço alto por viver outra vida. Deu com a cara no muro. E, depois, meteu-a na cachaça. Morreu disso.

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