terça-feira, 23 de setembro de 2014

a pressa (mea-culpa)

Já que é pra colocar a culpa em alguém, vou jogá-la no colo de São Paulo, essa cidade de malucos. Foi ela que me fez ser assim, um cara um tanto quanto apressado. Um tanto quanto, não – um cara apressado mesmo. Um cara que, de uns tempos pra cá, esqueceu o significado da palavra paciência. Sim, pa-ci-ên-cia. Um cara que, sei lá, às vezes, anda esquecendo que não se pode ter pressa pra viver. Fiquei assim. Mas, juro!, eu era diferente.

Nunca pensei que, um dia, fosse buscar o caminho mais longo, gastar mais gasolina, para fugir do trânsito e chegar mais rápido. Nunca pensei que o vermelho – seja do semáforo ou do freio do carro da frente – fosse se transformar num quase fim do mundo. Nunca pensei que seria tão escravo das horas, dos minutos como hoje. E, justamente por ser escravo disso tudo, vivo pedindo mais tempo ao tempo. Pra que não sei. Talvez pra alimentar essa pressa que me manipula sorrateiramente.

A pressa é um vício. Dos bravos. E ter esse vício é como viver numa batalha. É digladiar-se com o tempo. Mais ou menos como um jogo cujo objetivo é vencer o tempo. Olha só, quanta pretensão a minha! Jamais vencerei, sei muito bem disso. Mas lembre-se: ter pressa é um vício. E vício são monstros difíceis de domar. Eles te pegam sempre na curva, quando você está distraído, bem no dia em que acorda jurando ao mundo não ter mais pressa.

Ah, mas aí vem a moça do caixa da padaria que você toma café toda manhã e sua recorrente lerdeza na hora de passar o cartão. Já tentei pagar com dinheiro pra ir mais rápido, mas não adianta. Agora me diz: será que ela é realmente lerda ou eu que sou apressado?

Veja você uma das conclusões que tirei sobre isso: a pressa engorda. Ela te faz afundar nas junk food da vida. E tudo por um único motivo: essas comidas são mais rápidas. Você para o carro. Pede. Paga. Anda mais um pouquinho. Pega e sai comendo feito um louco dentro do carro pra chegar mais cedo em casa, pra tomar banho rápido, pra dormir rápido, pra acordar cedo – e rápido – e pra sentir as velhas novas pressas. Conheço bem.

O pouco que me lembro do tempo em que eu não sentia tanta pressa assim a vida parecia ser mais branda, mais calma. Desconfio que a felicidade era mais tangível naquela época. O sabor das coisas, e da comida, era diferente. Os dias corriam como deveriam – e não como um filme em fast forward. Até o cigarro tinha um gosto diferente. Aliás, antes, eu podia falar que ia fumar e pensar. Hoje, só fumo.

Enfim: queria ter pressa pra uma coisa só: ser feliz!

O resto é bobagem. 

PS: São Paulo, a história da culpa foi brincadeira. Ela é minha, só minha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário