quinta-feira, 28 de agosto de 2014

uma tomada

Uma tomada, por favor. Não quero água nem comida. Muito menos sua atenção para fazer o meu tempo correr um pouco mais. Só peço uma tomada. É, uma tomada para carregar o meu celular. Coitado, ele está morto. Morreu há pouco por insuficiência energética. Ele está aqui, olha, como uma criança vencida pelo sono. Já tentei acordá-lo, mas nada. Apertei esse botãozinho aqui, tá vendo? Até cheguei a ficar com o dedo nele por alguns segundos. Não adiantou. Foi fechando os olhos devagar o pobrezinho. Indo embora como um adolescente que tem que ir embora no melhor da festa.

Preciso reanimá-lo de qualquer jeito. E só você pode me ajudar. Você e a sua tomada. É coisa rápida. Quinze minutinhos já são suficientes. Se soubesse o quanto eu preciso do meu celular, você certamente já teria tomado-o de minha mão e o colocado ali naquela tomada. Naquela tomada ali, está vendo? Está livre mesmo, sem nenhum fio grudado, o que custa? Meu celular ficaria tão feliz, tão vivo. E eu mais ainda. Ele não pode me abandonar. Com ele assim, mortinho da Silva, nem sei o que dizer para o meu polegar, que está tão acostumado a deslizar pela sua tela num vai e vem viciante.

Tenha dó de mim, por favor! Uma tomada não vai atrasar a sua vida. Pena que não posso dizer o mesmo. Sem uma tomada pra carregá-lo, minha vida é que atrasa. Me diz: como vou chamar o táxi pra ir embora daqui? Por sinal de fumaça? Faça-me o favor, vai. Orelhão? Quase não vejo mais orelhão por aqui. Não tem mais. E, mesmo se encontrasse, eu queria ver um lugar, uma birosca qualquer, que vendesse aqueles cartões. Hoje o mundo precisa desse aparelhinho,não tem jeito. Esse aparelhinho que anda valendo mais que cerveja em happy hour de sexta-feira. Preciso dele pra ligar pra rádio táxi. Ou pra mandar um whatsapp pra...

Caramba! Ela deve estar P da vida comigo. Do jeito que é exagerada, deve estar pensando que fui sequestrado ou que eu esteja agora embaixo de um caminhão que invadiu a calçada. Ou pior: ela vai achar que eu estou numa dessas casas que têm aos montes por aqui, sabe? Ela não vai acreditar que a bateria do meu celular acabou. Conheço. Ciúmes é o forte dela.

- A gente tá cobrando agora pra usar a tomada, companheiro! Sabe como é, né?!
- Não, não sei. Mas valeu pela ajuda.
- Que isso?! Estamos à disposição. Tchau!
- Tchau!

Um comentário:

  1. Vinícius que alegria ler essa sua crônica. Quantas e quantas vezes me vi nessa situação. Cheguei a ir ao banheiro de bares à procura de tomada para recarregar, ao menos por 15 minutos, a bateria de meu celular. Rita Elisa Seda

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