segunda-feira, 23 de setembro de 2013

a augusta se aposentou

Não era a Augusta que conheci. Estava longe de ser. Era quarta-feira e ela estava quieta, olhar meio baixo, semblante triste e quase silenciosa – em outras quartas, dona Augusta, a senhorita já estava toda animada, feliz da vida, com aquele olhar jovem de quando a conheci, quase sem querer, numa noite esquisita de sexta-feira, está lembrada? Talvez não. Mas tudo bem, eu entendo. Você – posso lhe chamar assim? – deve estar muito cansada.

E eu já até imagino o porquê. Foi a modernidade, né?! Foi ela que levou embora todo o seu charme, toda a sua vida. Foi ela que acabou com aquele brilho que me encantava e que me fazia perder horas da madrugada com você. Quantas vezes o nascer do sol nos surpreendeu? Era o sinal para irmos embora. Você, como sempre, ia com aquele charme que me seduziu um dia. Ou uma noite, como queira.

Sabe, Augusta, São Paulo ficará menos romântica sem você. Ficará, sim, mais concreta, mais cinza e mais fria. Você se vai e leva a tradição, a parte de muitas vidas que passaram pelo seu olhar e tudo aquilo que me inspirou um dia. Boêmios e poetas ficarão órfãos, acredite. E os amores deixarão de nascer por tuas mãos.

A propósito, estou lembrando aqui: Tom Zé – que, aliás, já te cantou em outras épocas – devia imaginar que um dia você iria sucumbir à modernidade. Por isso, até chegou a escrever esses versos proféticos...  

(...)
Augusta,
que saudade,
você era vaidosa,
que saudade...


Também sentirei saudades!

3 comentários:

  1. DE BIANCA AZZARI, VIA FACEBOOK:

    Nós que nos aposentamos, acho. A Augusta continua ali. É que os mistérios e segredos vão mudando com o tempo...

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  2. DE JULIANA GONÇALVES, VIA FACEBOOK:

    Curti

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  3. DE BRUNO GUERRA, VIA FACEBOOK:

    A especulação imobiliária fez uma proposta que ela não podia recusar.

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