terça-feira, 10 de maio de 2011

conto do adeus

Ela se arrependera de tudo quando soube que ele estava no aeroporto. Foi um sentimento que, por instantes, parecia ter lhe roubado o chão e raptado a sua alma. Pensou nos beijos negados. Nos abraços distantes. Nos telefonemas em que se vestia de felicidade. E no amor irrelevante que, sempre em silêncio, confessava para si mesma em frente ao espelho. As lembranças eram a verdade que lhe invadia.

- Que horas é o voo dele? - perguntou à irmã.

Ela tinha quarenta minutos para resgatar aquele que, minutos atrás, descobrira ser o amor de sua vida. Mas eu nunca acreditei em amor. Por que isso agora, meu Deus?, pensou, enquanto costurava um trânsito raivoso. Suas mãos tremiam. Suavam. Suas pernas pareciam não obedecer aos seus comandos. A angústia parecia roubar segundos de vida. O ar lhe faltava. Estava desesperada.

No saguão do aeroporto, olhava aflita para os lados. Voo para Madrid, voo para Madrid, falava baixo e procurava no painel. Portão 2. Saiu correndo. Desviava das pessoas. Corria, quase sem tempo para encher os pulmões de ar.

- Oi!

Disse ele.

- Como soube que eu estava...
- Sua irmã me ligou!

Ficou muda. Seus olhos brilhavam. Era a esperança que respirava no meio do arrependimento.

- Não acredito que você resolveu ficar! - falou, soluçando.
- Não! Só fiquei para dizer que a gente teve uma vida inteira para alinhar um amor que, hoje, eu vejo que só existiu em mim.
- Mas...
- Eu sinto muito! Quando sua irmã me ligou fiz questão de esperar só pra dizer que o tempo, o nosso tempo, nunca existiu. Ou melhor, existiu só pra uma pessoa. Agora, tudo isso, não me vale mais nada.

Ela ajoelhou-se no saguão e, com a mão estendida, chorou. Era tarde.

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