domingo, 19 de dezembro de 2010

a última carta do papai noel

Meu querido filho...

Talvez essa seja a primeira vez que escrevo uma carta a alguém. Talvez, pois eu não me lembro muito bem se já não escrevi a outra pessoa no passado. Minha memória anda falhando bastante. Eu fui ao médico um dia desses e ele me disse que eu estava com, com... É, é... Esqueci o nome da doença. Mas não importa, meu caro. O que você vai ler nas linhas abaixo é o desabafo de um senhor de muitos anos e aborrecido com tudo.
 
Ando muito decepcionado com as coisas que me aconteceram de um ano pra cá. A começar pela surpresa que tive quando cheguei em casa depois do Natal do ano passado. Minha esposa havia me abandonado. Simplesmente saiu de casa e não deu mais notícias. Algumas pessoas dizem que ela fez plástica no rosto com um doutor aí, uma lipoaspiração na barriga... E que agora vive exibindo o seu novo visual nos pagodes da vida.

Eu ainda prefiro acreditar que ela vai voltar. Porque eu a amo muito. No entanto, desde então, eu não consegui me relacionar com ninguém – embora eu tenha recebido algumas cantadas da minha assistente, que é bem gostosinha por sinal. Mas acho que não aguento mais tanta juventude. Pra você ter uma ideia, eu nem sei mais como... Ah, você sabe o quê!

E, pra piorar ainda mais a situação, estou sem minhas renas. Rudolph morreu de gripe aviária. Desde o Natal passado ele já não estava bem. No Carnaval deste ano o Ru me abandonou de vez. Foi-se embora para sempre. Ainda estou tentando me recuperar. Tentando mesmo, porque cada vez que melhoro um pouquinho vem uma notícia desagradabilíssima.

Primeiro foi que Comet e Dancer – as minhas outras renas – resolveram se casar e me abandonaram assim, de uma hora para a outra, me deixando na mão. Prancer foi trabalhar com aquele dentuço do Coelhinho da Páscoa. Ela disse que o maldito estava pagando mais do que eu. Pode? Dasher se aposentou e foi morar nos Alpes Suíços. Aliás, não posso nem lembrar da minha aposentadoria. Que coisa mais terrível! Ganho tão pouco que prefiro nem dizer. E pensar que trabalhei tanto a minha vida toda.

Mas a alegria das crianças faz valer a pena o sacrifício. Fazia valer a pena, melhor dizendo. Porque hoje elas já não acreditam mais em mim. Passo pelas ruas e corredores de shopping e ninguém mais me dá bola. Os mais velhos vivem tirando uma com a minha cara. Um dia desses aí, uma menininha bonitinha me parou e disse que eu não existia e que era o pai dela quem comprava os presentes. Respondi que eu existia sim. Ela simplesmente mostrou a língua e foi-se embora.

Outra vez, quando estava atravessando a rua, um garoto de uns seis anos me empurrou. Na hora estava passando uma bicicleta, que me atropelou. Fui para o hospital e fiquei esperando o atendimento por quatro horas no corredor daquele lugar terrível. Aquele SUS é complicado. Depois, eu fiquei no quarto por quase duas semanas. Também pudera. Aquele pentelho que me empurrou me fez quebrar a bacia. Mas já estou melhor.

Só a minha cabeça que dói demais, meu filho. Muito mesmo. A propósito, eu preciso parar por aqui. Tenho que tomar o meu remédio pro Alzheimer. Viu?... Lembrei o nome da doença que o médico disse... É Alzheimer, é, é, é... Esqueci o seu nome. Desculpe-me.

Um feliz Natal,
Papai Noel

2 comentários:

  1. Vinicius, mas que Papai Noel depressivo!
    "Tadinho". Será que tem cura? Quem sabe
    em 2011, as coisas melhorem.

    Bom Natal e um 2011 farto em crônicas.

    Um abraço
    marina h castanheira

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  2. Vi, coitado do papai noel, acho que este ano você não vai ganhar presentes...(srsrsr) ele nem lembrou seu nome...(kkk) Que gracinha seu texto.
    bjos.

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