quinta-feira, 12 de agosto de 2010

os bilhetes de amor

Estou pensando aqui: bilhetes de amor não deveriam existir. Ou melhor: deveriam sim, só que com prazo de validade. No ponto certo do sentimento, eu diria. Coisa assim: quando o amor acabar, todos os bilhetes esquecidos na gaveta de meia, nos guarda-roupas, no bolso do paletó, nas estantes, embaixo da cama e entre os livros desapareceriam como uma mágica qualquer.
Os pedaços de papel tinham por obrigação divina se desintegrarem como o próprio sentimento. Assim, junto com eles, dobrariam a esquina todas as histórias, as lembranças, as saudades, os beijos mais acalorados (e os não muito acalorados também), os abraços, a vivência. Tudo.
Mas, por favor, não pense que estou querendo me desfazer do passado. De maneira alguma. Só desejo que todas as lembranças de um ex-amor se transformem em escravos prontos a nos servir no momento conveniente. No mais conveniente possível. E pronto. O contrário disso é besteira. E quer saber? Besteira das grandes.
Porque lembranças guardadas num bilhete de amor que, numa segunda-feira despretensiosa, pula à sua frente viram tortura. São chibatas te esfolando, corroendo a carne sem compaixão. Eles não têm fundamento, muito menos lógica. Antes fossem apenas pedaços de papel sem aquelas letras que, grudadas, formam memórias, por que não?, dolorosas.
Por isso, acredite você ou não: os bilhetes de amor – de uma forma ou de outra – acabam provando da eternidade com mais paladar do que o próprio sentimento que, num dia normal, os fez nascer.

5 comentários:

  1. concordo com vc... e, por isso sempre levo comigo uma frase: o que há de melhor eu guardo comigo sempre, pra sempre...

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  2. DE ARETUSA DER FORTES, VIA FACEBOOK:

    Nuuussaaaaa vc tá poético hj amigo!!! Q lindo!

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  3. Hoje eu acordei sem sono / e sem vontade de acordar / o meu amor foi embora / e só deixou pra mim / um bilhetinho todo azul com seus garranchos...
    É duro trombar com essas provas de um amor antigo.
    Mas, elas nos inspiram. Não importa quão bom ou quão mau tenha sido o amor: os bilhetinhos têm lá sua função social. Mesmo que doa.

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  4. O pior, é que depois de escrito, voce não pode mais refutar.

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  5. Sinceramente ? Guardo alguns escondidinhos... de tão lindos, tão arrebatadores, pendo que lá pelos meus 80 e poucos anos, vão me fazer um pouco mais viva...porquê auto-destruirem-se ? O sentimento já não o foi ? Que reste a poesia das palavras... que lindo consolo numa velhice sem tais paixões da juventude, cheia de ímpetos, carnes firmes, sentimentos avassaladores...que fiquem para a posteridade !

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