quarta-feira, 23 de junho de 2010

maldita donata

Pensou naquele quase-beijo dado num passado bem longínquo, no canto esquerdo da sua boca frouxa, meio às pressas, meio que com medo de algo que, até hoje, ele não se lembra. Balbuciou algumas palavras estranhas. Achou que ainda estava sonhando. Deu um salto da cama e levantou-se. Foi até a janela, puxou a cortina com as mãos de preguiça. Olhou desconfiado. Era dia, quase tarde. Estou atrasado, pensou. Mas logo se perguntou: atrasado pra quê? Sua vida era apenas lembranças. A principal delas era Donata, mulher de beleza estonteante e brilhante: era assim que ele costumava a descrever para si próprio, quase sempre em silêncio. Sabia que aquele tempo não voltava mais. Que nada mais voltava. Naquela hora entendeu que o tempo é único. Sentiu um aperto no peito que durou até o próximo pensamento. Lembrou, mais uma vez, da mulher que mais amou e que nunca teve nos braços. Talvez por isso estivesse ali, imerso em lembranças penosas e vontades impossíveis. Eu devia ter tido mais coragem, falou baixo e por simples hábito. Isso era o que sempre dizia quando aquela imagem invadia sua mente nostálgica. Apesar de tudo, tinha consciência de que as palavras eram tão inúteis como o desejo de algo que nunca conhecera. O que lhe restava era o desejo, apenas o desejo, de encontrar com Donata novamente. Ensaiou uma prece a alguma divindade, mas não passou da quarta ou quinta palavra. Desistiu. Estava descrente. Andava duvidando de tudo. Sua única certeza era o medo de enlouquecer por causa de uma mulher. Ela não merece minha loucura, não merece, não merece, não merece, repetia. Deu três passos em direção ao banheiro. Passou a mão no seu rosto úmido e magro, olhou-se no espelho e viu a imagem de Deus refletida. Foi então que desceu as escadas correndo e gritando ‘Maldita Donata, maldita Donata...’. Desde aquele dia, ele nunca mais foi visto por ali. Simplesmente sumiu, levando a loucura provocada por aquilo que costumava chamar de amor.

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