terça-feira, 17 de novembro de 2009

um feliz fim do mundo pra você

Quer saber? Já estou cheio desse papo de que o mundo vai acabar. Desde que nasci o mundo está acabando. E nunca acaba. Tenho um amigo, que acredita em disco voador e bebe chá de cogumelo aos sábados à noite, que não fala em outra coisa que não seja nesse tal de fim do mundo. Ele até já prometeu que, desta vez, o mundo chega, enfim, ao fim.

A verdade? Quero mais é que o mundo acabe mesmo. Mas, antes, eu precisaria fazer algumas coisinhas pra – digamos – ter um feliz fim do mundo.

Eu iria à padaria pelado. Sairia correndo na rua em ziguezague com tudo ao léu, balançando, rodopiando e tudo mais. Na volta, passaria no apartamento da mulher do 26 para mandá-la tomar no fim do mundo. Depois – um pouco mais aliviado, – tocaria a campainha do apartamento da menina do 13. Confessaria que perdi noites só olhando-a pela janela. Diria, ainda, que ela fica bem melhor de lingerie preta. Passaria na casa da síndica e diria que ela deveria ter arrebitado um pouco mais o nariz na última plástica.

Eu ouviria Chico no último volume e ignoraria as centenas de reclamações que certamente chegariam pelo interfone. Atiraria os meus dois celulares pela janela. Quebraria a calculadora. Rasgaria o meu dinheiro. Colocaria numa caixa de papelão todos os meus CDs, o meu computador, o meu fone de ouvido. Subiria no alto do prédio e atiraria lá do alto folha por folha do meu livro do Drummond. Jogaria minhas roupas no lixo da cozinha. E colocaria a junk food no lixo do banheiro. Falaria todos os palavrões que existem. E inventariam mais alguns só para falar na hora também.

Escreveria cartas de amor. Sei que elas não seriam entregues a tempo, mas escreveria mesmo assim – só para colocar pra fora todo o amor que passou uma vida entalado na minha garganta. Escreveria verdades e mentiras. Picharia pelos muros da cidade os segredos que já me contaram. Tiraria as mágoas do meu coração. Procuraria os desafetos para transformá-los novamente em afetos. Tentaria tirar toda dúvida, toda incerteza e toda angústia dos meus pensamentos. Eu oxigenaria a minha cabeça só com bons fluídos. Buscaria a paz; tentaria tocá-la por um instante.

Correria para a montanha. Subiria lá no ponto mais alto. Deitaria naquela grama bem ralinha. Abriria os braços. Fecharia os olhos e esperaria o mundo acabar – de preferência, dormindo. Mas, agora, se eu acordar e o mundo estiver aqui, vivinho... Ah, aquele amigo me paga. Oh, se paga!

2 comentários:

  1. Fiquei imaginando todas as ações descritas no texto e refletindo o que eu também faria. Adorei. Bjos

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  2. Bom, acho que para começar, nada de nudez nas ruas.
    Não. Não mesmo.
    Acho que eu não escreveria nada, mas diria todas as palavras de amor que já pensei escrever. Faria, sim, muitas das coisas que um dia hesitei [ao menos todas as que eu tenha certeza que não prejudicariam ninguém, nem a mim]. Seria mais fiel aos meus sentimentos, sem pensar em vergonha, medo, futuro ou incertezas.
    Provaverlmente esse seria o momento mais 'vivido' da minha vida. Se ele existisse e se pudesse ser previsto.
    E se eu dormisse então, com a sensação boa de ter podido fazer tudo de bom que eu queria, e acordasse e tudo estivesse ainda aqui, como 'sempre', acho que no máximo eu daria algumas explicações, riria de mim mesma, e seguiria a vida normal de antes de tudo.
    Ou não.

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