quinta-feira, 12 de novembro de 2009

carta

Minha querida...

Hoje, meio sem querer, encontrei uma caixa lá no fundo do meu guarda-roupa. Lá estavam empacotados em folhas de jornal todos os nossos momentos. Todas as nossas fotos, os presentes, os bilhetes de saudade, de sentimento pleno. De um sentimento que, talvez, eu jamais vá viver novamente. Nessa hora, eu confesso: bateu um medo danado. Uma tremedeira nas pernas e uma palpitação no coração fora do comum. Deu uma vontade de chorar, mas consegui segurar a tristeza. Minha vontade pegar o tempo pelas mãos, segurá-lo bem forte, e levá-lo de volta ao lugar exato da minha felicidade.

E como eu era feliz ao seu lado...

Você me trazia uma paz sem igual. Uma paz igual àquela que o seu sobrinho Dudu transmitia enquanto dormia, lembra? A sensação de um sonho eterno. De colo de mãe. De abraço de pai. De brincadeira de avô. Algo que temo nunca mais sentir na vida. Desde que você foi embora, tudo parece ter perdido a cor. O mundo ficou cinza. Nublado. Ficou igual à minha visão – meio ofuscado, sei lá. E o meu coração, então? Coitado... Fica sempre a esperar um encontro mesmo que repentino; mesmo que seja numa esquina qualquer.

Meus pensamentos ficam sempre ansiosos por um sinal de esperança, por um telefonema, por uma carta. Mas sei que essa esperança nada mais é do que uma tortura disfarçada. O problema é que eu sou teimoso, você sabe disso, né? Por isso que estou aqui, escrevendo-lhe meus sentimentos... Tentando transformar em palavras a sua ausência. Saiba que precisei juntar as migalhas de coragem que ainda me restavam para eu chegar até aqui. Escrever sentimentos que adormecem exige coragem. Coragem, também, para encarar a incerteza do futuro. Não sei se vou conseguir viver mais tanto tempo. Ando meio fraco ultimamente. É aquele velho problema do meu pulmão. Tem hora que sinto uma falta de ar que você não faz ideia...

Enfim. Só quero que não se preocupe em responder essa carta. Não quero tomar o seu tempo. Sua vida deve corrida à beça. Cuidar dos netos não deve ser tarefa fácil, né? Deve ser tão bom ser avó! Fico aqui imaginando... Mas vou terminando por aqui. Eu escrevi mesmo só para lhe dizer que o amor que um dia juramos embaixo daquela mangueira no sítio do seu avô ainda existe. Essa é a única certeza que tenho.

Saudades,

Do seu eterno menino.

Um comentário:

  1. Pra quem perdeu um grande amor, eis aqui as palavras que guardam o coração. Me identifiquei muito com o texto. Vinicius parabéns. Bjos

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