quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

a morte do doutor Bezerra

Ninguém derramou uma lágrima sequer naquele velório. As poucas pessoas que passaram por ali não demoraram muito. Entraram, fitaram o defunto, fizeram o sinal da cruz e tão logo saíram. Uma senhora ensaiou puxar um terço, mas ninguém continuou. Antes mesmo de acabar o primeiro mistério, as pessoas foram saindo da sala timidamente. Pouquíssimas eram as flores. A única coroa colocada ao lado do caixão foi uma cortesia do farmacêutico, que ficou amigo do falecido nos seus últimos meses de vida.

Bezerra deu o seu último suspiro lá pelas tantas da madrugada. Sentiu um aperto que começou no rim, passou pelo fígado e terminou no coração. Parecia uma corrente elétrica percorrendo aquele corpo roliço. Momentos antes de cair duro no chão, milhares de coisas passaram pela sua cabeça. Foram vários os sentimentos. Mas nada que chegasse perto da infinidade de perdões ditos antes de os seus olhos ficarem arregalados e fecharem numa fração de segundo.

A notícia de sua morte não chocou ninguém. Nem mesmo os seus melhores amigos ficaram surpresos com o fato. Os mais próximos se limitaram a dizer duas ou três palavras. Nem mesmo dona Florisbela Góis, uma solteirona distinta que nutria certa paixão platônica por Bezerra, moveu uma palha para ajudar na cerimônia. Mário Gogó, o dono do boteco, foi o responsável por comprar o caixão. Fez isso porque se lembrara das piadinhas de Bezerra, que jurava vir puxar a perna dos homens mais muquiranas de Rasteirópolis. Mário preferiu não arriscar.

* * *

Aquele homem não tinha nada de doutor. Seu nome de batismo era Adamastor Bezerra das Neves. Ganhou o título de doutor quando chegou à pequena Rasteirópolis, cidade com pouco mais de cinco mil habitantes. O doutor, talvez, tenha surgido por causa do hábito de não ir ao açougue sem aquele terno preto de linho italiano. Vivia assim. Costumava dizer que homem de verdade tinha que usar roupas sóbrias. Aquilo impressionava os mais humildes, principalmente as mocinhas que passeavam pela praça. Elas o achavam charmoso, dono de uma classe nunca vista na cidade.

Mas de charmoso Bezerra não tinha nada. Era baixinho, meio barrigudo, com umas entradas que denunciavam uma calvície não muito distante. Mesmo assim, doutor Bezerra caprichava nas suas palavras. Falava frases difíceis e fazia o tipo galanteador. E não eram apenas as mocinhas que babavam por ele; as senhoras mais bem casadas da cidade também. Era aí que morava o problema.

E esse problema, o mais fatal de todos, atendia pelo nome Raphaela. Era uma senhora bem enxuta para a sua idade. Casada há quase 50 anos com o médico mais famoso de Rasteirópolis, ela adorava se exibir nas festas que aconteciam no Clube Arapongas. E foi numa dessas festas que Raphaela viu pela primeira vez o doutor Bezerra. Ela ficou encantada com a gentileza daquele homem. Seus olhos cintilavam. Pareciam estrelas em noite clara de verão. Assim foi o começo de uma paixão que só não foi perfeita por causa do seu desfecho.

Bezerra se encontrava sempre às escondidas com Raphaela. Eram encontros sem muitas palavras, porém, cheios de ações. Era uma paixão com verbos corporais. Beijos acalorados. Abraços que pareciam eternos. Olhos quase sempre fechados; quando muito, entreabertos num ambiente à meia luz. Os encontros emanavam o desejo do sempre. O mundo poderia acabar quando Bezerra e Raphaela estavam unidos num emaranhado de corpos e lençóis. Os encontros eram combinados discretamente, quase sempre com um piscar de olhos numa festa. Aquele era o código.

Por outro lado, doutor Caieiras se desdobrava para pensar no melhor presente para comemorar as bodas de ouro com a esposa. Havia pensado, a princípio, num cruzeiro pela costa, mas logo se lembrou que Raphaela não suportava viagens de navio. Achava cafona demais. Também pensou em fechar um pacote para as cidades serranas do Rio de Janeiro. Logo desistiu. Queria algo mais impressionante, que fosse além de qualquer romantismo. Ele passava horas pensando no tal presente. Estava tão apaixonado quanto no dia em que conheceu Raphaela, num baile da cidade.

João Caieiras era cego pela esposa. Morria de amores por ela. Sempre fez tudo para manter aquele amor vivo. Mandava flores e chocolates. Caprichava sempre nos detalhes que um grande amor pedia. E adorava dizer que Raphaela era a mulher de sua vida e de sua morte – frase que a fazia bater três vezes na primeira estante de madeira que visse pela frente. Só para deixá-la ainda mais encabulada, Caieiras complementava que não a abandonaria nem depois de morto.

Tudo tinha um tom de perfeição na relação do casal mais tradicional de Rasteirópolis. Tudo mesmo. O problema começou a surgir de verdade com ligações anônimas que desembocavam no consultório do médico todos os dias – sempre no mesmo horário. Uma voz suave e clara o alertava: “Cuide bem daquela que você acredita ser o motivo de sua felicidade”. Caieiras balbuciava: - Deve ser alguma pessoa invejosa. Desligava o telefone e balançava a cabeça. As ligações tornaram-se ainda mais frequentes. Até que, no dia em que o médico havia decidido, enfim, o presente de aniversário de casamento para a esposa, outra ligação surgiu.

Dizia: “Esteja na sua fazenda hoje à noite para saber a verdade sobre aquela que tanto ama”.

Eram duas da manhã quando doutor Caieiras chegou à sede da fazenda. Entrou às escondidas, pelos fundos, e ficou na dispensa – à espera daquilo que a voz misteriosa prometera. Já estava quase dormindo em pé quando viu a luz do quarto principal acender e apagar rapidamente. “Que coisa estranha”, pensou. Com passos bem lentos e silenciosos, o homem seguiu em direção ao quarto. Respirou fundo, abriu a porta, acendeu a luz e caiu. Caieiras, aquela altura, não respirava mais.

* * *

Raphaela chorava muito à beira do caixão. Ela não acreditava na situação. Também se sentia culpada, mas procurava não pensar nisso. Tentava lembrar apenas dos bons momentos que passaram juntos, como naquela viagem que fizeram a Buenos Aires ou como no jantar surpresa que o falecido havia preparado há duas semanas. Mesmo assim, nada parecia afugentar aqueles pensamentos embargados por uma culpa sem igual. Tinha uma convicção de que a morte do marido era consequência da decepção que o fizera passar.

Era tempo de luto.

O problema foi que esse luto durou até a piscadela que Bezerra deu no meio do sermão do padre, durante a missa de sétimo dia. Carente como nunca, Raphaela não teve forças suficientes para recusar o convite. Discretamente balançou a cabeça e soltou um sorriso ainda mais discreto. E lá foi ela ao encontro do amante.

Sobre a mesma cama, os beijos e abraços de sempre. Raphaela e Bezerra pareciam os mesmos amantes. Tanto que, no meio da madrugada, ela resolveu ir à cozinha para beliscar alguma coisa. Doutor Bezerra preferiu ficar na cama, à espera da mulher. Só saiu quando ouviu um barulho na porta. Chamou por Raphaela, que não respondeu.

Levantou-se da cama e seguiu em direção ao barulho. Completamente desconfiado, o amante abriu a porta do quarto. Bezerra não conseguia acreditar no que os seus olhos estavam vendo. Ele respirou fundo. E começou a pedir perdão. Mas logo veio o aperto que começou no rim, passou pelo fígado e terminou no coração. Doutor Bezerra caiu para trás. Estava morto.

3 comentários:

  1. Sem comentários... muito boa sua crônica!

    ResponderExcluir
  2. Como dizia a bandida da última novela "Velha ser vergonha..."
    Muito bom o texto!!

    ResponderExcluir
  3. De Sérgio Valério, via e-mail:

    Parabéns! A morte do Dr. Bezerra é um conto digno realmente de um grandeescritor! Um abraço! Sergio Valério

    ResponderExcluir