segunda-feira, 24 de novembro de 2008

palavras de um romântico-virtual

Preciso contar uma coisa: sou um romântico-virtual. Mas, por favor, não me olhe assim. Poupe-me de comentários maldosos, descabidos. Eu já nasci assim. Cresci com isso. Nada pude fazer. Sempre achei que essa era a única forma de romantismo que existia nesse mundo completamente virtual. Foi aos poucos que percebi a legitimidade do romantismo à moda antiga.

Desculpa, vai. Não era a minha intenção viver a plenitude desse romantismo de arrobas, e-mails, scraps e torpedos.

O computador, a internet – sei lá – parecem que são uma extensão dos meus sentimentos, sabe? Uma espécie de mecanismo para dar vazão às minhas expectativas sentimentais. É isso. São os complementos do meu coração tecnológico. Acredite – e não me recrimine, por favor. Eu vivi a minha adolescência achando que o MSN era o caminho mais, digamos, correto (e romântico, claro) para se conquistar outro coração.

E eu – tolo de tudo – cheguei a atravessar a madrugada em frente ao computador, gastando os meus dedos em prol de um discurso que, só agora, tive a capacidade de entender que se tratava de algo que foge do legítimo romantismo. Perdi horas de sono para o meu computador. Tudo por causa do MSN – esse bate-papo que veio para assassinar de forma impiedosa o romantismo das rosas, das serenatas no meio da noite, das caixas de chocolate...

Esse bate-papo oferta a coragem em troca do mais belo romantismo. E ali – pode acreditar –, tudo é possível. Na internet, as palavras são belas, beiram a poesia de Vinícius de Morais, de Pessoa, Neruda... Enlouquecem qualquer coração à beira da paixão. Simplesmente fascinam. Por outro lado, são distantes. Meio gélidas.

Ah se Chico Buarque soubesse do Orkut e seus mecanismos anti-românticos. Talvez, ele rasgaria todas as suas poesias. É melhor nem contar que o Orkut tem, agora, algumas ferramentas que, por exemplo, entregam rosas virtuais, que dão beijos calorosos, que dão abraços inesquecíveis...

Sem a internet, eu seria um desastre-romântico-ambulante. Confesso. Eu não saberia onde colocar as mãos. Não saberia a hora de abraçar. De beijar. Ficaria imerso numa mudez sem qualquer tipo de perspectiva de quebra de silêncio. Ficaria, para falar a verdade, como o meu computador sem internet numa madrugada de frustração amorosa. Essa é a vida de um romântico-virtual. Ou melhor: essa é a vida de um pseudo-romântico.

3 comentários:

  1. Eu amei sua forma mágica de colocar em palavras esse pseudo-romantismo que a cada dia cresce no mundo globalizado. Quer um conselho? Saia de frente da telinha e batalhe uma mulher palpável, isso é, física. Deixe a virtual de lado. Sei que você é tímido. Sei que é bom com as palavras escritas, afinal é um cronista de primeira linhagem. Mas seja bom com as palavras orais. Aposto que aí em Sampa há muitas mulheres querendo conversar pessoalmente. Hehehehehe...
    Tudo de bom para você.

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  2. Não serei tão radical. E-mails, MSN, Orkut, poderiam ser utilizadas de forma mais racional e prática, até para o bem da comunidade. Mas, servem apenas para mostrar um lado que nem sempre é verdadeira. Acho horrível arrumar alguém pela internet. Cadê a graça de conhecer através dos olhos, de apalpar, de mostrar o seu lado criativo na hora da conquista?

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  3. "Cada uma defronte uma tela
    dois locais distintos da cidade
    Trocam palavras de solidão e se despendem com palávras táteis
    beijo, abraço, cumprimento."
    Lia Lupilo

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