domingo, 19 de outubro de 2008

perdi um amigo

Os deuses bem que tentaram impedir aquele acontecimento. O céu até desabou no dia anterior. As ruas ficaram alagadas. O bueiro jorrava água como se fosse a fonte da velha praça da cidade. Era algo não muito típico na minha vida. Um enxame de abelhas também chegou a dar o aviso.

Mas a dor da perda é inexplicável. Ela nos remete ao passado em busca de uma (falsa) tentativa de solução. Mais ou menos isso. E é assim que tento entender o que aconteceu com o meu melhor amigo.

O que interessa é que situações muito divertidas foram compartilhadas nesse curto tempo: assuntos pitorescos nos piores botecos da cidade, jogos de bilhar com a ausência das bolas ímpares, piscina do clube no inverno e saídas de carros atrás de qualquer mulher disposta a transar às duas da manhã de uma quarta-feira.

Tudo era maravilhoso – até mesmo quando um ou outro beijava a menina mais feia da festa. As gargalhadas eram a simples síntese daquele desastre romântico. Foi divertido enquanto durou... Hoje, infelizmente, nada disso é mais possível. As coisas mudaram. As cervejas não terão mais o gosto da juventude. As mulheres, então, serão totalmente inatingíveis. A vida pôs um ponto final nesta situação.

E esse final teve um início. Uma noite quente de dezembro. Coincidência ou não, a chuva caía impiedosamente. Os mais bajuladores diriam que os céus estavam derramando lágrimas por aquele momento insólito. Eu diria que aquilo já era um prelúdio para o fim que já estava próximo.

A dor perdurou um pouco mais. Talvez alguns meses, eu não me recordo direito. Só sei que o calor estava forte para todos aqueles reunidos com trajes pretos. Preto de luto, de lástima, de tristeza. O coração estava ansioso. Os outros amigos chegavam com passos curtos, como aqueles que andam sem querer chegar.

Os meus pensamentos sobrevoaram aquela pequena sala. Pensava num passado feliz que dificilmente voltaria até mesmo por meio das minhas lembranças. Quando voltei ao normal, observei uma senhora que, timidamente, enxugava as lágrimas.

Comecei, então, a prestar a atenção nas palavras daquele homem que mais parecia um profeta com os seus trajes sóbrios. Ele falava de amor, carinho. Mas logo ele me chamou. Tive que ir lá frente e assinar um papel. Com o rosto vermelho de tanta vergonha, segui até a mesa da frente e rabisquei, com as mãos trêmulas, meu nome.

Era a hora dos abraços e dos desejos infinitos de felicidades. Muita emoção. Foi difícil segurar as minhas lágrimas quando cheguei perto do meu amigo. Resisti. Mas eu sabia que aquela situação era irreversível. Já estava sacramentado. Ele acabara de se casar.

9 comentários:

  1. Muito boa!... parabéns pela premiação. Você merece. Você vai longe... continue assim. Não páre de escrever. Quero um livro seu. loguinho, já.
    Felicidades e a paz!

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  2. Oi Vini! Concordo com a Rita, essa é muito boa mesmo, rsssssss. Parabéns pelo texto!
    Bj

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  3. E ai parabens pelo Bate Papo muito interessante trocar idéias com jornalistas.Se bem que pelo tempo que escrevo...não demore para publicar...arrisque...já tó no segundo cd quanto mais se publica mais aperfeiçoa-se a escrita....abraços

    Joca Faria

    artegaia.blogspot.com

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  4. fALA VINICIUS BLZ..aQUI É O SELMER.CONVERSAMOS NA SUA PALESTRA AQUI EM SJC.vOU LER COM CALMA O SEU TRABALHO E EM BREVE COMENTAREI..jÁ INCLUI SEU BLOG NA LISTA DO MEU BLOG.. PARA MIM É SEMPRE UMA HONRA CONHECER NOVOS ESCRITORES..ABRAÇÃO CARA E NOS FALAMOS POR AQUI..

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  5. La puta madre! Fator surpresa muito bem empregado.

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  6. EU MEREÇO METADE DESTA PREMIAÇÃO EM..AFINAL É MINHA HISTÓRIA RS
    AGORA VOCÊ TEM Q ESCREVER SOBRE MINHA VIDA ,,,
    AI SIM VOCÊ VAI GANHAR O PRÊMIO MÁXIMO
    GRANDE ABRAÇO MEU AMIGO.

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  7. Ahahahahah! Eu tava quase chorando, imaginando você no velório do cara! Vou repensar seu convite para meu casamento... Senão vc vai republicar essa crônica mais uma vez! rs...
    Fernanda

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  8. Nossa, bom demais!! Estou lendo aqui no meu trabalho, achando que teria que segurar o choro pro chefe não ver que estou "matando" trabalho aqui e, no final das contas, não consegui segurar o riso!!
    Muito boa a crônica!

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