domingo, 7 de setembro de 2008

dia de palhaço


Sábado de manhã. Centro de São José dos Campos. Milhares de pessoas disputam o espaço das calçadas estreitas. Alguns correm com sacolas e mais sacolas na mão. Outros andam tranqüilamente com as mãos ao vento, balançando – como eu, ou melhor, como o Porpeta, que incorporei para comemorar o Dia do Palhaço.

Roupas largas e coloridas, sapatos grandes e desajeitados. No rosto, uma pintura que me fez esquecer a minha identidade por, pelo menos, algumas horas. A experiência foi interessante e cativante, como o sorriso da pequena Jeniffer, de cinco anos, que achou graça quando falei o nome do meu personagem. Foi um sorriso tímido de quem estava surpresa com a situação.

Por alguns instantes, ela ficou estática na minha frente, com as mãos na boca, me olhando fixamente. Quando estendi a mão para cumprimentá-la, algo que eu não esperava. Uma surpresa. “Posso te dar um abraço?”, perguntou com aquela voz que quase não saiu.

Se por um lado o abraço da Jeniffer me deu ainda mais coragem de encarnar o palhaço Porpeta, as palavras de dois homens me fizeram sentir na pele o que um palhaço é obrigado a enfrentar nos dias atuais. No calçadão 7 de Setembro, dois sujeitos passam por mim. De repente, eles param e começam a disparar palavras ofensivas. Eles me chamaram de... Palhaço.

”Isso é o mais normal, mas esse ‘palhaço’ que eles te chamaram foi um palhaço pejorativo”, disse Alain Pilim, palhaço há 50 anos, que me acompanhou nesta experiência.

Mas esse episódio foi logo superado. E foi pela ingenuidade de Guilherme, que me mostrou a sua idade nas mãos. Três anos. Quando me dei conta, à minha volta, não só o Guilherme estava mais ali. Existiam várias outras crianças. Todas querendo abraçar e apertar a mão do palhaço Porpeta. E olha que eu não estava distribuindo balas nem chicletes. Mesmo assim, ganhei uma de Brian. Quando tirei a embalagem, não era bala. Era a sementinha de uma daquelas árvores da praça Afonso Pena. Eles caíram na gargalhada.

Ao contrário da alegria contagiante das crianças, os adultos disparavam um olhar mais seco, meio sem alegria. Alguns deles me condenaram apenas com um mirar, sem ser preciso atirar qualquer tipo de ofensa. Essa conclusão eu tirei quando me sentei no ponto de ônibus mais movimentado do centro. Ali fiquei por uns quarenta minutos. Mais ou menos.

As pessoas tentavam disfarçar um descontentamento visível. Suas ações traduziam o pouco caso. Algumas delas ensaiavam sentar ao meu lado, mas desistiam quando me avistavam. “Está calor hoje, não?”, comentei com um senhor que vendia balas, sentado no banco ao lado. Sua resposta foi monossilábica. “Está”. Tentei tirar da senhora a informação sobre qual ônibus ia para a Rodoviária Nova. A resposta nem monossilábica foi. Ela simplesmente fingiu que não ouviu a pergunta. Segundos depois se levantou e foi se sentar na outra extremidade do ponto.

Quando atravessei a rua 15 de Novembro, em frente ao prédio da antiga Câmara, um grito surgiu entre os carros. Alguém disse que eu estaria ali em busca de qualquer trocado, o que fez o agente de trânsito dar um sorriso meio “amarelo”, do tipo forçado.

Poucos metros adiante, eu entrei numa lanchonete para comprar água. Parece que minha presença parou o lugar. Aqueles que estavam comendo, pararam. Aqueles que estavam bebendo, pararam. E só escutei alguns comentários do tipo “Que palhaço mais babaca!”. Mas babaca por que, ora bolas? Não fiz nada que lhe desse motivo para me chamar assim. Nem pensei em discutir com aquele sujeito. Não valia a pena mesmo.

Prefiro guardar o sorriso do Guilherme e a lembrança do abraço da Jeniffer.

* (Matéria publicada no jornal Valeparaibano em 9 de dezembro de 2007/ Crédito foto: Flávio Pereira)

Um comentário:

  1. Ha...ha...ha... eu guardei esse jornal para a posteridade. Vou sempre me lembrar de você, assim... vestido de palhaço. Fazendo essa careta, todo colorido. Se um dia quiser seguir a carreira não irá morrer de fome... he...he...he...he...he

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