segunda-feira, 2 de outubro de 2017

cruzeiro, 116

Cruzeiro é contrapeso para a minha loucura, um antídoto para o meu caos, um remédio para o cansaço, o silêncio para os meus ouvidos. Cruzeiro é a minha terra e ir pra lá é sempre uma forma de voltar a respirar dentro do compasso, respeitando o tom. Volto diferente de lá, volto mais simples e, por isso, mais forte.

É onde reabasteço a minha ternura, onde esqueço o que me aborrece, onde converso sem pressa, sentado no meio-fio da calçada quase sempre, é onde sou imune as horas e onde o vermelho do semáforo é apenas o vermelho do semáforo. É lá onde a comida tem o gosto da infância, onde esvazio a cabeça e encho o coração, é onde a vida fica mais perto de ter um sentido.

Cruzeiro da minha gente simples, mas de cabeça erguida.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

o homem que tinha sorte

Eu sabia que ele ia chegar. Percebi quando saí na calçada para fumar. Acendi o cigarro e olhei para o céu meio alaranjado de São Paulo. Vi uns três aviões desaparecerem entre os prédios. Pelo viaduto, contei três ambulâncias apressadas e barulhentas. Na minha frente um homem travava todo o trânsito da rua em tentativas incontáveis de estacionar o carro na vaga. Tudo isso aconteceu enquanto ele chegava.

- Boa noite! 
- Opa, boa noite! – respondi já com a mão no maço de cigarros. Ele tinha cara de quem fumava. Apostava tudo que ele me cerraria um. 
- Tou encanado com esse número aqui – disse apontando para o 1974 que estava na lateral de uma Brasília azul bem cuidada estacionada à esquerda. 

Perguntei-lhe se era uma data especial. Já um pouco mais empolgado, ele respondeu que, na verdade, aquela já era a segunda vez no mesmo dia que havia se deparado com os tais números.

- Arrisca na loteria – sugeri.

Ele ia e vinha na calçada sem tirar os olhos do tal número. 

- Loteria eu não acredito, não; sou mais o jogo do bicho, é mais seguro.
- E como você vai fazer? Vai somar os números? – quis saber.
- Isso, vou juntar com os da placa do carro também.

1+9+7+4 somados à placa do carro 4+3+8+7 daria 43.

- E qual é o bicho que tem esse número? 
- Cavalo! – foi rápido na resposta. – Tenho sorte com cavalos – emendou.

Os seus olhos eram de um brilho... 

A essas alturas ele já deve ter jogado. Ou está quatro reais mais pobre, o que ele me confessou que iria apostar, ou está cento e trinta reais mais rico, que era o que estava calculando ganhar. Talvez a grana não seja o suficiente para ele largar o emprego de vigia noturno. Mas talvez dê para tapar alguns buracos do orçamento de casa ou, quem sabe, fazer um agrado para a patroa.

Ele carregava uma esperança bonita de ter uma vida sem muitos apertos. O homem acreditava na sorte com tanta verdade. Mas aqueles sonhos, de tão simples, não poderiam ser comprados com cento e trinta reais. O lindo ali era o acreditar que ele conjugava apenas com o olhar, que era de um brilho...
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terça-feira, 6 de junho de 2017

domingo no sítio

Quando completei doze anos, meu tio Savinho me convidou para passar uma manhã no seu sítio, um lugar tranquilo, de ar virgem, cravado na Serra da Mantiqueira. Um domingo seria o ideal, ele deu a letra, dia de reflexão, de bons conselhos. Mas o tempo, sacana como sempre foi, nos ludibriou. Vieram, então, os compromissos estudantis e a ânsia por uma felicidade adolescente que era alimentada por línguas, amores e namorinhos de portão. 

E, assim, a vida foi passando, passando... 

Surgiram outras novas bocas. Outras paixões. Outras desilusões. Outros abraços. Outros namorinhos. E outros portões. Lembrávamos sempre do nosso trato nos cafés de sábado à tarde na casa da vó. E ficávamos de remarcar para um domingo qualquer.

E, assim, a vida foi passando, passando... 

Até o dia, recente, em que lhe disse que gostaria de ir ao sítio. Era um pedido nostálgico. Vamos fazer um churrasco num domingo?, ele convidou, animado. Domingo é bom, continuou, dia de reflexão, de bons conselhos. Topei. Mas falhamos de novo. Deixamos nos levar por compromissos bestas.

E, assim, a vida foi passando, passando...

Quando acordei, o telefone berrava. Era sexta-feira, sete e meia da manhã. Do outro lado, meu pai, com a voz baixa, avisava: seu tio descansou. Eu estava nocauteado. Era como se a vida tivesse me roubado o ar por alguns segundos depois de um muro bem dado na boca do estômago. Já era tarde.


 PS: No último domingo eu voltei ao sítio, depois de 15 anos. Estava tudo quieto, mas, ao mesmo tempo, tão vivo. 

PS2: Eu voltei de lá escutando essa música, que me faz lembrar tanto aquelas terras.


sábado, 13 de maio de 2017

a mudança

Na semana passada, eu me mudei de casa. Eu estava um tanto bom ansioso, mas achei outro tanto exagero. Era medo, talvez, de algo ficar para trás, de alguma bobeira esquecer. Fiz uma lista. Coloquei tudo. Toalha e roupa de cama. Pratos e aquele treco que não sei o nome de tirar lasanha. Cuecas e meias. Camisas e camisetas.

Os livros meu irmão empacotou. E os pratos no armário minha mãe guardou. Mas um dia antes, é bom que se diga, eu e a Mari tratamos de tudo limpar. E meu pai, paciente, subiu as gavetas do armário andar por andar. Aos poucos fomos tudo desempacotando.

Televisão e computador. 
Mesa e congelador. Microondas e geladeira. Colchão e frigideira. E fomos tratando logo de colocar tudo no lugar. Porta-retrato e sofá. Vaso e quadro. Tapete e cortina. Panela e rotina. A coleção de pen drives ficou no escritório, em cima. E os versos escritos ficaram lado a lado, em rima.

Assim, tudo foi se ajeitando. Faltavam algumas coisas de banheiro só. Coisa boba. Sabonete. Xampu. Espelho. Creme de barbear. Perfume. Desodorante e escova de dente. Mas falhei numa coisa: me esqueci da besta do pente.