sábado, 13 de maio de 2017

a mudança

Na semana passada, eu me mudei de casa. Eu estava um tanto bom ansioso, mas achei outro tanto exagero. Era medo, talvez, de algo ficar para trás, de alguma bobeira esquecer. Fiz uma lista. Coloquei tudo. Toalha e roupa de cama. Pratos e aquele treco que não sei o nome de tirar lasanha. Cuecas e meias. Camisas e camisetas.

Os livros meu irmão empacotou. E os pratos no armário minha mãe guardou. Mas um dia antes, é bom que se diga, eu e a Mari tratamos de tudo limpar. E meu pai, paciente, subiu as gavetas do armário andar por andar. Aos poucos fomos tudo desempacotando.

Televisão e computador. 
Mesa e congelador. Microondas e geladeira. Colchão e frigideira. E fomos tratando logo de colocar tudo no lugar. Porta-retrato e sofá. Vaso e quadro. Tapete e cortina. Panela e rotina. A coleção de pen drives ficou no escritório, em cima. E os versos escritos ficaram lado a lado, em rima.

Assim, tudo foi se ajeitando. Faltavam algumas coisas de banheiro só. Coisa boba. Sabonete. Xampu. Espelho. Creme de barbear. Perfume. Desodorante e escova de dente. Mas falhei numa coisa: me esqueci da besta do pente.

terça-feira, 26 de julho de 2016

pra você

Ora, ora...

Por que esse medo todo? É o amor, ué. Apenas o amor chegando no seu quintal. Sim, é aquele mesmo amor que, em algumas noites de sábado – sozinha, muitas vezes –, você desejou nas esquinas escuras dos seus pensamentos.

Acredite.

É aquele mesmo amor que lhe fez chorar quando as luzes do cinema estupidamente se acenderam apenas para denunciar as lágrimas teimosas que desenhavam no seu rosto uma vontade não declarada de viver algo parecido com aquilo que acabara de assistir.

Não tenha medo muito menos receio. Jogue-se – de preferência, de olhos fechados, porque assim o frio na barriga vai ser maior. E frios na barriga são o sintoma mais fiel ao amor.

Pois é, você pode até duvidar, mas saiba que o amor precisa de entregas, de corpos, de alma.

E de bocas, claro.

Precisa de sorrisos e lágrimas, sinceros. Das linhas tortas da poesia. E da música pros corações dançarem como crianças.

O amor precisa de dois pés bem longe do chão.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

pelo whatsapp

Sei lá, tava meio a fim de ir naquele barzinho hoje! Topa?, escreveu.

Ah, não sei...

Ela evocou dois minutos de silêncio para pensar qualquer coisa antes de continuar.

E se agente fosse...

Interrompeu e jogou a angústia no colo dele.

Desculpa, foi o corretor, achou melhor corrigir.

E continuou.

O certo é a gente separado, escreveu antes de uma sequência de gargalhada.

A gente separado? Nem brinca!

E ela, do outro lado, mandou um daqueles corações que batem, batem, batem...         

segunda-feira, 11 de julho de 2016

dias mal humorados

Não adianta reclamar.

Tem dias que são assim mesmo, ué, fazer o quê? Parecem que eles nasceram do avesso, virado no coisa ruim, são dias que desceram porque não tiveram escolhas ou porque, vá saber, não conseguiram estrebuchar com a preguiça.

São dias mal humorados.

Dias em que a bola não entra.
Que a cerveja não desce.
Que a bola não rola.
Que o jogo empata.
Que a reunião não acaba.
Que o elevador pifa.
Que o molho mancha.
Que o semáforo fecha.
Que a chuva aperta.
Que o frio pega.
Que o carro estraga.
Que a hora atrasa.
Que o adversário vence.
Que o cartão trava.
Que o ônibus não para.
Que a boca amarga.
E que o nó sufoca.
Inclusive este texto.


São dias em que nenhum sorriso agrada e que nada está bom.
Inclusive este texto.